quinta-feira, 1 de março de 2012

Resenha da palestra de David Harvey: Os Enigmas do Capital e as Crises do Capitalismo (Boitempo, 2011)

Estimados,
Segue minha singela contribuição àqueles que não puderam comparecer na palestra de David Harvey, ocorrida dia 29 de fevereiro de 2012, no Salão Nobre do IFCS/UFRJ, na ocasião do lançamento de seu novo livro O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo (Boitempo, 2011)
Esse texto também poderá ser encontrado no site do Núcleo de Estudos Contemporâneos da Universidade Federal Fluminense (NEC/UFF).


As origens da crise

O último trabalho do geógrafo britânico David Harvey, O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo (Boitempo, 2011), visa explicar a crise econômica de 2007/2008 ocorrida nos EUA, a partir de uma abordagem marxista, de forma compreensível. Trata-se de simplificar o argumento sem destruir as contribuições de Marx para a análise do capitalismo e suas crises sistêmicas. O autor defende que uma análise sobre a crise, os lucros e o consumo nos permite vislumbrar caminhos para travar a luta contra-hegemônica na contemporaneidade.
Harvey parte da premissa que o capitalismo não resolve a problemática da crise porque não é capaz de superar suas contradições. O que faz é contorná-la sucessivas vezes. O professor da City University of New York resgata F. Engels e seu trabalho sobre a burguesia e a crise imobiliária afirmando que desde o século XIX não havia como resolver o problema das moradias, este é transferido para outros setores e, eventualmente, volta à tona. Quer dizer, a crise acaba sendo contornada, porém jamais resolvida. Outro exemplo é a poluição. O capitalismo não resolve o problema, mas o contorna e cita o fato dos EUA enviarem navios cheios de lixo para serem despejados no mar ou em outros continentes.
A crise, portanto, é empurrada de um setor para outro: do financeiro, é jogada para o Estado, posteriormente, para a população e assim por diante. Em essência, a história do capitalismo é o ato de contornar a crise de um setor para o outro, inclusive geográfico: começa em um país ou em um continente e, logo, é transportado para outro.
Nos EUA em particular, o consumo e as hipotecas dobraram em 1999, bem como os refinanciamentos de imóveis. Isso representa uma capitalização do sistema financeiro e o aumento do valor das propriedades. Muita gente vive disso para gerar lucro (é certo também que muitos não têm opção; dependem disso para sobreviver). A crise começou nesse setor, pois o mercado imobiliário acabou explodindo.
O ciclo vicioso das hipotecas/refinanciamentos começou com Bill Clinton ao dissimular o problema inerente que havia nesse procedimento, instigando o povo estadunidense no que diz respeito aos benefícios da propriedade privada. Uma onda de hipotecas tomou conta do país. O objetivo por trás dessa política era fundamentalmente o lucro.
Ainda nos anos 90, muitos já haviam perdido suas casas, uma vez que não tinham condições de manter o pagamento das hipotecas. O mercado financeiro viu aí uma grande oportunidade de aumentar ainda mais seus lucros através de refinanciamentos. Vale notar que é o próprio mercado financeiro quem controla o fornecimento e a demanda por moradia no país. Portanto, quando se amplia a demanda por compra de propriedades, o preço das mesmas aumenta, mas como as condições de investimento são boas, mais pessoas – inclusive aquelas que jamais teriam condições econômicas de arcar com os custos de uma hipoteca - acabam comprando (ou tentando comprar) sua casa própria. Com isso, o preço continua a aumentar. O que subjaz aí é um problema crítico, uma bola de neve, que acaba estourando em 2007/2008, quando não foi possível pagar mais pelas hipotecas ou refinanciá-las. Nesse momento, o valor ativo das propriedades despencou e passou a não valer mais nada. Muitas instituições não conseguiram vender esses ativos a tempo e foram à falência. A crise da moradia se converteu, então, num problema financeiro, num crise de acumulação capitalista. Como solucioná-la? O Estado, nesse caso, assumiu o papel de salvador, isto é, para injetar investimentos no mercado, os governos se endividam através de dívidas soberanas. Para o grande Capital, é mais interessante fazer empréstimos para países do que para empresas, já que os primeiros não podem desaparecer. Estão fadados a permanecer em seus territórios onde o credor tem condições de pressioná-lo no sentido do pagamento de suas dívidas.
Feitos os empréstimos, a questão que se coloca em seguida é como solucionar o problema das dívidas soberanas. Ora, através medidas de austeridade (princípio neoliberal), nas quais a população é quem acaba pagando. Salvam-se os bancos e estrangulam-se os povos. Piora-se a vida das pessoas para pagar as dívidas dos bancos. Em 2005, os ajustes do Fundo Monetário Internacional/FMI eram controlados justamente pelo Estado.
Mas e quando as pessoas se revoltam e não aceitam pagar pela crise? Esta é a realidade de muitos países atualmente. Nesses casos, a crise vai para qual setor? Volta para o financeiro?
Segundo Harvey, na China, nos primeiros meses da crise, houve a perda de cerca de 30 milhões de empregos (nos EUA, foram 7 milhões). O que fazer com essas pessoas? Afinal, são consumidores que deixam de investir na economia; interrompe-se, assim, o ciclo do mercado. O investimento em exportações é uma opção, porém, isolado, é incapaz de resolver o problema estrutural que há no mercado interno. Os chineses investiram, então, em obras de INFRAESTRUTURA, velho princípio keynesiano colocado em prática por Franklin Delano Roosevelt nos anos 30, nos EUA, no contexto da Grande Depressão provocada pela Crise de 1929. Na China, houve um investimento maciço nesse setor; pelo menos, duas cidades inteiras foram construídas para absorver o problema do trabalho. Além disso, o governo proibiu que os bancos emprestassem dinheiro para a população. Os recursos deveriam ser investidos nas obras dirigidas pelo Estado.
Já nos EUA, o Estado injetou capital no mercado financeiro, salvou os bancos, porém, esses recursos não se espalharam pela economia. Ficaram nas mãos dos banqueiros. Ao contrário, portanto, do que ocorreu na China, onde os banqueiros não tinham condições de enfrentar as determinações do Estado.
O resultado: os chineses viram um boom de investimentos e houve uma rápida recuperação da crise no país que, por sua vez, ajudou a recuperar vários dos países com os quais mantinha relações comerciais. Um boom de exportações de commodities para China permitiu que países, como o Brasil, por exemplo, não sentissem na mesma proporção a crise que teve início nos EUA e que se alastrou para a Europa. Para se ter uma ideia, nos últimos cinco anos, a China comprou metade de todos os estoques de cimento do mundo. Nunca houve tamanho investimento em urbanização. Em 6 meses/1 ano, o gigante da Ásia já havia superado a crise, bem como os países exportadores desses produtos.
Portanto, podemos observar que houve duas experiências de “soluções” para a crise: uma parte do mundo adotou medidas de austeridade; outra, a fórmula keynesiana-chinesa. Esta última, que vem alimentando a expansão econômica da China, é a que sustenta metade do mundo. Se o modelo chinês quebrar... o mundo, de igual forma, sofrerá duras consequências.
Nesse sentido, cabe indagarmos se este modelo é realmente seguro. Isto é, quanto tempo esse quadro vai continuar?
Para responder a esta pergunta, Harvey demonstra como esse processo atual – de investimentos em infraestrutura de urbanização para superar crises econômicas - corresponde a um ciclo do capitalismo. Tal como ocorre na China atualmente, nos anos 20, nos EUA, também houve um boom imobiliário. O autor demonstra que a Crise de 1929 foi precedida por um colapso do mercado imobiliário e de construção. Nesse sentido, é possível relacionar ambas as dimensões: o boom imobiliário e a crise econômica. Roosevelt tentou recuperar o mercado imobiliário investindo no setor de construção, o que resolveu parcialmente o problema. Porém, é importante destacar que, em 1939, muitos estadunidenses ainda estavam desempregados. Quer dizer, o sistema capitalista requer um processo contínuo de investimentos em urbanização/reurbanização para gerar emprego e renda, alimentando, assim, o mercado. Não é à toa que muitos políticos são dependentes de empresas de construção civil.
Vale notar que, nesse contexto, as cidades-olímpicas se converteram em espaços privilegiados para colocar em prática essa premissa do Capital. São alvos desses interesses capitalistas de urbanização. Grécia, Atlanta e outras, receberam um boom imobiliário. Porém, vítimas do ciclo econômico acima referido, depois, quebraram. Será este o futuro do Rio de Janeiro? Precisamos ficar atentos.
Portanto, a urbanização é fundamental para a manutenção do sistema capitalista. Sendo assim, considerando essa dimensão, o que as pessoas pensam sobre isso?

Possibilidades emancipatórias

Diante dessa característica do capitalismo - isto é, de ter na urbanização sua peça chave de reprodução - que se torna cada vez mais evidente, o que percebemos no âmbito das lutas contra-hegemônicas é que há um aumento das contestações desse modelo de urbanização predatória.
As cidades estão sendo transformadas para atender às demandas do capitalismo e não para o bem-viver. Se a urbanização é estrutural para o capitalismo, é preciso estar atento às lutas urbanas que, no contexto atual, devem ser entendidas ou tornadas, lutas de classes. Não há mais o operariado clássico das fábricas, mas sim, trabalhadores urbanos, dispersos e desorganizados. Nosso papel é compreender esses trabalhadores e observar como se construiria uma identidade coletiva de classe. Como organizar essa classe trabalhadora para a luta contra-hegemônica?
As cidades na história foram palco de importantes lutas: houve a experiência da Comuna de Paris de 1871; atualmente, vemos a tomada das praças no Mundo Árabe, o movimento de Ocupação de Wall Street. Quer dizer, as cidades são espaços de poder e de luta contra o sistema. Seu papel é central.
Em relação ao movimento de Ocupação de Wall Street, Harvey reconhece sua importância, porém critica que seu princípio de atuar em exclusiva horizontalidade é uma fraqueza. Para o autor, qualquer forma de organização deve articular horizontalidade e verticalidade. Sem este último, que é o que, ao fim e ao cabo, garante a ação política de forma mais objetiva, os movimentos não conseguiriam se manter firmes durante muito tempo. O Ocupy Wall Street foi interessante também para identificarmos o real significado dos “espaços públicos” nas cidades. Haverá mesmo esses espaços?
Harvey sugere que o que precisamos são de projetos de urbanização alternativos. No mundo contemporâneo, há bons exemplos disso. Alguns dos casos mais emblemáticos para o autor são as cidades de El Alto e Cochabamba, na Bolívia – objetos do seu último livro lançado nos EUA. Ali, os movimentos indígenas foram capazes de articular a horizontalidade e verticalidade para a tomada de decisões e conseguiram derrubar dois presidentes, além de conquistar outra série de benefícios. As estruturas indígenas se fundiram com a realidade das cidades e permitiram a construção de um paradigma do que deveriam ser as lutas urbanas na contemporaneidade.
Por fim, indagado sobre o papel do campo em toda essa história, Harvey afirma que não haveria mais essa distinção clássica entre campo X cidade. Hoje, o que consideramos como “campo”, na verdade, seriam extensões rurais das cidades uma vez que princípios da vida urbana são recorrentemente encontrados nessas regiões (utilização de celulares, televisão, internet etc.). Harvey resgata a obra de Lefebvre, quando o autor analisa a Revolução Urbana na Europa e previu que essa transformação ocorreria.
Em El Alto, para voltar ao exemplo, as formas originárias rurais indígenas se metamorfosearam com a ocupação das cidades. Portanto, atualmente, tudo é urbano de alguma forma e a luta contra-hegemônica deve ser organizada partindo dessa premissa. 

sábado, 7 de janeiro de 2012

Diário da Bolívia: A Partida (06-07/01)

Dias 06 e 07 de janeiro de 2012

Último dia de aventura. É, como diria o poeta, "foi bom enquanto durou". Nossa diária terminava às 12h e tínhamos a esperança do hotel não nos cobrar pelo último dia. Porém, isso não aconteceu. Tentamos negociar um desconto para o último dia com base num caderno de descontos que o Hugo encontrou em algum hostel aí da vida. Conseguimos 15%, o que foi bom. 
Deixamos nossas mochilas no depósito do hotel e fomos à Plaza de los Estudiantes, onde soube que havia boas livrarias. 



Ainda tinham uns livros sobre a Revolução Nacionalista de 1952 que eu gostaria de comprar. Infelizmente, já não nos sobrava muito dinheiro. Chegamos a apelar, inclusive, para os R$70 que eu tinha na carteira para conseguir uns bolivianos extras. Muy bien, a tal Plaza é mais longe de onde estávamos, então, pegamos as famosas "mini-vans" que atuam paralelamente às "camiñonetas" no transporte coletivo. 




Chegamos à Plaza e as livrarias que haviam me indicado estavam fechadas, mas encontramos outras por sorte. Minha vontade era levar mais uma dezena de livros, estava disposta até a passar no cartão, mas o Hugo me trouxe de volta à Terra e eu fui mais comedida. 
Encontramos umas duas livrarias muito boas e comprei mais uns livrinhos. Coisa pouca...






Comemos mais uma vez nesses fast foods bolivianos e ficamos a caminhar pela área próxima à Plaza. Tentamos ir ao Museu Arqueológico de Tiwanaco (mas estava fechado para restauração), vimos o tal do Parque da Cidade (horroroso!!!!), o campus central da UMSA (Universidad Mayor de San Andrés) e tentamos ir também na Cinemateca (e ver se conseguia comprar uns filmes do Jorge Sanjinés), porém, também estava fechada. No caminho para a Cinemateca, nos deparamos com a Embaixada do Brasil, um suntuoso prédio. Hugo não resistiu e foi abraçar o símbolo do nosso país e eu consegui tirar a foto antes que o segurança nos expulsasse de lá.







O tempo começou a fechar e a ameaça de chuva se converteu em realidade. Voltamos para nossa área e, sem dinheiro, não tínhamos mais muito o que fazer. Já havíamos andado por tudo e não dava mais para comprar nada. Quer dizer, ainda comprei umas hojitas de coca para tentar levar para o Brasil e uns últimos regalitos. 
Faltavam ainda 2h para irmos ao Aeroporto Internacional de El Alto. Voltamos para o hotel e escrevi um pouco no lobby. Depois disso, foi maratona total. Ficamos umas 2h em El Alto esperando nosso vôo para Santa Cruz (fazia muito frio nos pés de Chacaltaya,  a 4058m de altitude, e os céus nos brindava com uma incrível lua); chegando em Santa Cruz, ficamos mais 5h esperando nosso vôo para São Paulo (o clima já estava mais ameno); chegamos em São Paulo (com SOL!!) e estamos aqui, esperando mais umas 5h para pegar nosso último e tão esperado vôo para o Rio de Janeiro. 





Escrevo essas últimas palavras em Guarulhos, com o coração batendo forte, lembrando de toda a estrada que percorremos até aqui. A Bolívia é realmente um país sensacional. Tivemos a oportunidade de ver de perto suas belezas naturais mais incríveis, mas, sobretudo, gostaria de destacar a força cultural desse povo. Minhas índias, que para sempre ficarão em minha memória. O processo, o Estado Plurinacional, o Governo Evo Morales, suas contradições e avanços, são temas realmente muito interessantes e só vieram a ratificar meu profundo desejo de estudar este país e seu povo.



No avião a caminho de Santa Cruz, conheci Eduardo, um tecnocrata do Estado Boliviano que atua na área de tributação. Conversamos um bocado sobre os desafios colocados ao levar à prática o Estado Plurinacional e acabou que ele se tornou um bom contato com movimentos sociais na Bolívia. No pouco que conversamos, deu várias dicas sobre as dificuldades que enfrenta para "entrar" no mundo dos indígenas. Como é difícil, como são fechados, como temos que nos comportar, como é importante aprender a língua, respeitar as lideranças, sobretudo os anciãos, enfim, várias coisas que, seguramente, serão fundamentais para o desenvolvimento da pesquisa. 
Eu estava decidida a aprender aymará, comprei até um dicionário, mas ele disse que o ideal é aprender quechua primeiro, pois é mais fácil. O aymará é muito difícil e, as vezes, uma pronúncia diferente pode levar à equívocos comprometedores. 
Voltamos para o Brasil energizados. Temos certeza que evoluímos muito nesse percurso. Sair da nossa bolha e olhar para o nosso país, nossos costumes de fora, é um aprendizado sobre nós mesmos também. Quanto mais contrastante é uma cultura, mais aprendemos sobre nós mesmos e nossas capacidades e potencialidades de transformação. 
Aprendi muito, amei muito, vivi muito este país no pouco tempo que passamos. Foram duas semanas intensas que jamais nos esqueceremos. 
Agora é voltar para o Brasil, começar a ler essa tonelada de livros que eu comprei, começar a desenhar meu projeto de doutorado e tentar ainda este ano ou no próximo. 
Nas horas de ócio de aeroporto, comecei a ler Wankar Reynaga. É vergonhoso que nunca tenha ouvido falar dele. Trata-se, nada mais nada menos, do que um dos mais importantes porta-vozes do movimento indígena aymará-quechua-guarani no mundo. Este livro, Tawa Inti Suyu, fui traduzido em várias línguas e é um dos mais importantes manifestos em favor da luta pela libertação indígena, em que é apresentada toda uma nova cosmovisão do universo, da humanidade, da relação do homem com a natureza. É realmente muito rico e acho que temos muito o que aprender com esse povo. 
Vamos ver. 


(...)


Tá bom, eu sei, eu sou uma apaixonada... Mas o que fazer? Está no meu DNA. Eu realmente SOU uma apaixonada por esse continente que tanto quero esmiuçar.  E, não, isso não necessariamente compromete minha prática de historiadora. Acho, sim, que o mundo acadêmico precisa um pouco mais disso: paixão. Não se trata de uma paixão que cega, mas uma paixão que move, que instiga. Eu sou movida por essa paixão e espero que ela jamais se apague do meu peito. Ao contrário, que sempre se renove para enfrentar novos desafios. 

Termino esse diário como comecei, seguindo uma concepção de que o tempo é cíclico, que se renova, mas, no final, acabamos voltando sempre ao lugar de onde começamos: Bolívia, aí vou eu...


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Diário da Bolívia: Museus, museus, museus e...

Dia 5 de janeiro de 2012

Mais um dia por las calles de La Paz. Sem dúvida, é uma cidade muito bonita. Como não fomos fazer o passeio ao Chacaltaya e ao Vale de la Luna, aproveitamos o dia para terminarmos de comprar o que faltava na calle de la brujas e conhecer uns museus da capital.
Antes de encarar o desafio, me aventurei no famoso API, uma bebida feita de milho negro. Já tinha visto isso em vários lugares, inclusive, em Cochabamba, mas nunca me arrisquei. Porém, como já estava melhor das intempéries estomacais, pensei que não poderia sair daqui sem provar a tradicional bebida. PUTZ! Infeliz idéia... o negócio é MUITO RUIM. Tem cor de açaí, um cheiro esquisito, meio doce. Sei lá, só sei que não gostei, mas para não fazer desfeita ao gentil senhor do lugar que compramos, me obriguei a tomar pelo menos metade. ARGH!! Boa sorte aos que se aventurarão no API quando vierem aqui...


Depois fomos comprar... nossas alianças. Queria aproveitar a oportunidade de estar na terra da prata (e do ouro também), para comprar umas que tivessem a ver conosco. Na verdade, acho que foram as alianças que nos encontraram. Em meio a zilhões de anéis de prata e de tudo, a zilhões de tendas, vimos uma que nos apaixonamos na hora. De prata, revestida por ouro 18k. Foi uma tortura conseguir achar uma do tamanho do nosso dedo. A pobre senhora da tenda, fez o possível e o impossível para encontrar. No final, deu certo. Aí está.


A aliança possui a Cruz Andina, também conhecida como Chakana (em quéchua significa “escadas”, no caso, “quatro escadas”). É um símbolo originário dos povos indígenas dos Andes. É uma cruz milenar, utilizada como símbolo pelos Tiwanacu (falarei um pouco sobre eles mais a frente) e outros povos dos Andes (a cruz já apareceu em vestígios arqueológicos de povos do Equador, Chile, Argentina), além dos próprios Incas. O vestígio mais antigo data de 4.000 a 5.000 anos.
Segundo o que pesquisamos, o símbolo é uma referência ao Sol e ao Cruzeiro do Sul. Trata-se de um esforço de levar o céu à terra e a terra ao céu. Suas pontas sugerem umas escadas que te levam ao ponto mais elevado; teriam um sentido também de união entre opostos, o baixo e o alto, a terra e o sol, o homem e a mulher, o humano e o universo.
Cumprida a missão, fomos a Calle Jaen, onde há uma concentração de uns 4 museus. Depois de percorrer pelas calles de La Paz, nos deparamos com o primeiro museu, Museu de Instrumentos Musicais. O Hugo ficou louco.  O museu percorre a história dos instrumentos andinos desde tempos pré-colombianos até a atualidade. Em várias ocasiões, podemos tocar os instrumentos mais diferentes. Cada sala é climatizada com o som derivado de um tipo de instrumento: cordas, sopro, tambores etc. Hugo parecia uma criança em meio a toda aquela história da música. Muito lindo e incrivelmente bom o museu.














Depois, continuamos pela calle Jaén, uma rua colonial de pedras, restaurada, muito bonita. Existem mais quatro museus, além do que visitamos, que você compra um ticket que vale para todos. 




Começamos pelo Museu de Etnografia ou Museu Costumbrista “Juan de Vargas”, onde podemos ver um pouco da história da Bolívia, roupas que eram utilizadas, episódios históricos marcantes em maquete, com destaque para as lutas anti-coloniais no século XIX. No centro, havia uma enorme maquete representando a morte de Tupac Katari, um grande líder indígena que levantou um exército contra os espanhóis. Teria bebibdo do legado de Tupac Amaru, mais conhecidos por nós, do Perú. O katarismo se converteu em um movimento indígena muito forte aqui na Bolívia posteriormente e até hoje se mantém vivo. Mas isso é uma outra história.



Outro destaque é para a história das Cholas Paceñas (isto é, de La Paz), minhas índias. Uma parte do museu é destinada à história desses trajes tão típicos utilizados pelas mulheres bolivianas. As cholas eram mestiças ou indígenas que vinham para as cidades e conseguiam juntar alguma riqueza. Eram vistas com preconceito pela elite branca, mas conquistaram alguma ascensão social. Depois de uma revolta indígena em fins do século XVIII, o Império Espanhol obrigou que as mulheres utilizassem essas saias, o jalequinho e o chapeuzinho equilibrado na cabeça. A medida foi apropriada e retraduzida pelas índias que transformaram os trajes em um símbolo de resistência e ofensiva (porque não se trata apenas de “resistir”, mas se afirmar também) cultural.



Depois fomos a um Museu destinado exclusivamente ao “litoral boliviano” perdido para o Chile, na Guerra do Pacífico entre 1879 e 1883. Para a Bolívia, até hoje, é uma questão nacional, prevista na Constituição, a recuperação da saída para o mar, o que se traduz em uma permanente tensão com o país vizinho.




Fomos também a um Museu de Pedras Preciosas onde podemos ver um pouco da história dos povos pré-colombianos da Bolívia. Muito antes dos Incas, habitaram neste território, na Bolívia, a civilização Tiwanaco. Uma civilização milenar que esteve por aqui desde os anos 500 a.C. até o século XII, mais ou menos. Esse povo não deixou linguagem escrita de legado, apenas cerâmica, ouro, prata, tecidos e outros vestígios. O nome foi dado pelos aymarás, ao que consideravam como o “povo do meio”. O estilo da arte é o maior legado deixado por este povo. Há um sítio arqueológico incrível aqui em La Paz, onde podemos ver algumas estruturas encontradas por arqueólogos, inclusive, o “portal do sol”, presente em muitos artesanatos locais.




Por fim, fomos à Casa de Murillo, um grande líder que protagonizou




Visitados todos os museus, nos sentamos num Café para tomar um café artesanal dos arredores de La Paz. O pó poderia até ser bom, mas infelizemente, os bolivianos aqui não bebem café, mas sim, CHAFÉ, de tão aguado que é... Que saudade da minha NESPRESSO e do café arpeggio.










Caminhamos de volta para o Hotel, mas antes, voltamos ao Mercadão de Madureira e pude conferir mais livros. Infelizmente, não temos mais dinheiro e não pude comprar todos que queria. Confesso que sofro de certo fetichismo com os livros, quero comprar tudo e todos. Hugo que segura minha bola. O bom é que depois não fico arrependida de ter gastado muito...
Já eram umas 19h, voltamos para o quarto, arrumamos as coisas, pois amanhã é dia de partir. Quando nos demos conta, já passavam das 22h e ainda tínhamos que comer. Sem dinheiro e tarde do jeito que era, não resistimos e voltamos à MARAVILHOSA PIZZARIA DA CHARO. Desta vez, comi uma massa a carborana, buenissima. Tomamos um vinho e fechamos nossa última noite em La Paz. 

Diário da Bolívia: Pelas calles de La Paz (04/01)

Dia 04 de janeiro de 2012


Depois do cansaço de ontem, recuperamos as baterias pela manhã no hotel. Ficamos no quarto de preguiça. Recebi ótimas notícias do Brasil, o que já considero fruto desse processo de energização que vivemos por aqui e que apontam um ano de 2012  excelente para nós.
Saímos, então, a caminhar pelas ruas de La Paz e sentir o clima da principal cidade da Bolívia. Como eu disse, o hotel é incrivelmente bem localizado. Ao lado da calle de las brujas, que tem todo tipo de artesanato, panos , ouro, prata e uma parte só de feitiçarias (com filhotes de llama empalhados).









A rua é incrível. Lindíssima, com todas aquelas cores. Começamos a procurar, então, regalos para família e coisas para enfeitar nossa casa. No meio do caminho me deparei com o Museo de la Coca (confiram: www.museodelacoca.com). Imediatamente entrei e fui conhecer um pouco a história dessa folha tão sagrada para os bolivianos – ou alguns bolivianos.



Estudos comprovaram que a utilização da hoja de la coca por homens e mulheres data de 3.000 a.C. Os primeiros povos teriam sido os Lauricocha, Toquepala e Paccaicasa, no Altiplano Andino, nas regiões que hoje ocupam o Perú, a Bolívia e a Colômbia, principalmente.
Durante o período Inca, nos séculos XV e XVI, a folha era adorada como filha da Pachamana, através da qual os povos indígenas entravam em contato com os deuses. Era uma das principais oferendas ao Rei-Sol e outras deidades. Apesar de todos terem o direito de mascar a coca e utilizá-la em rituais, os Incas controlavam profundamente seu uso e produção, tendo um sentido político muito importante.
Ainda no Império, e mesmo antes dos Incas, as propriedades da planta foram descobertas e era utilizada como analgésicos para fazer cirurgias de grande agressão. Enquanto no Ocidente, séculos depois, ainda eram utilizadas técnicas de golpear a cabeça do paciente ou embebedá-lo para fazer essas intervenções, os Incas já haviam descoberto essa propriedade da coca e faziam cirurgias de alta complexidade. Além disso, estudos comprovaram também que a coca tem a capacidade de curar mais de 50 doenças.
Com a chegada dos espanhóis, o uso da folha era tão disseminado, que foi impossível proibi-la, apesar dos esforços de certos setores da Igreja. Sobretudo depois com a exploração das minas de prata e de ouro, a coca se tornou ainda mais fundamental para a sobrevivência dos indígenas naquelas condições totalmente inóspitas de trabalho e exploração.
A coca é também um elemento cultural que media as relações sociais. Dá uma olhada nesse textinho aqui abaixo:



Foi em 1858 que o alemão Albert Neimann, produziu pela primeira vez a cocaína, a partir da folha de coca. Suas propriedades anestésicas foram muito importantes em meados do século XIX para uma série de intervenções médicas. Personagens ilustres como Sigmund Freud, passaram a fazer uso permanente da cocaína, tendo se disseminado durante o século XX como uma droga com efeitos perversos para seus consumidores.
Em 1887, Sttyth Pemberton, de Atlanta, apresentou ao mundo uma bebida não alcoólica a base de coca, chamada Coca-Cola que viria se tornar um fenômeno mundial.
E, em 1863, o químico Angelo Mariani produziu também o “Vino Mariani”, um tônico médico, a base de coca, que passou a ser utilizado para combater a depressão, curar vários transtornos físicos, recomendado também para impotência, febre, gota, insônia, ente várias outras doenças contagiosas e nervosas. Mariani chegou a ganhar a Medalha de Ouro do Papa León XIII por sua contribuição à humanidade.
Portanto, a coca tem uma longa história. Não pode ser resumida a simples droga. É cultural, é medicinal, é cerimonial, é muito mais do que a simples cocaína. Um dado que me chamou atenção no Museu é que apenas 5 países do mundo, hoje, tem o direito de exportar, se não me engano, 500 toneladas de cocaína de forma legal. Estes países são os Estados Unidos, a França, a Bélgica, a Alemanha e mais algum grande que não me lembro. Irônico, não?
Eu, particularmente, só faço mascar coca o dia inteiro. No começo tem um gostinho ruim, mas depois você se acostuma e não quer outra coisa. A altitude não me afetou nadinha até agora, mesmo subindo e descendo ladeiras.



Outra coisa no Museu que me chamou atenção, foi uma parte que falava da Balsa de Tora Tora. Lembram que eu postei ontem umas fotos de umas balsas em formato de dragão no Lago Titikaka? Olha só:


Pois, então, elas são um indicativo de que houve contato entre as civilizações pré-colombianas e o Oriente. Thor Heyerdal e, posteriormente, Kitin Muñoz, tentaram cruazar o Oceano Pacífico em grandes balsas de Totora originárias da América. Para a construção dessas balsas, eles contrararam engenheiros náuticos aymarás do Lago Titikaka descendentes de várias gerações de mastigadores de coca - sendo eles mesmos mastigadores de coca. 
Paulino Estevan era genial e graças a ele foi possível construir essas balsas gigantes, permitindo o êxito da aventura pelo Pacífico. A engenharia náutica andina é uma outra demonstração do nível extraordinário alcançado por essa cultura, que teve a habilidade de sobreviver no lago mais alto do mundo. 
Depois do Museu, continuamos a caminhar pela calle da las brujas ate chegarmos a um ponto que parecia com as tendas de umbanda que temos por aí, com velas, aromas, filhotes ou fetos de llama, entre várias outras “feitiçarias”. É muito interessante e assustador ver a llamas naquelas condições. Dizem que é para “dar sorte”. Eu não arrisco levar uma para casa, não.






Fomos depois ao centro comercial buscando jeans baratos e paramos para almoçar no “Bob’s” boliviano, “Pollos Cochabamba” porque o Hugo queria esse bendito frango engordurado com papas fritas. Era barato, então, ficamos por ali mesmo.
Continuamos a caminhar pelo centro, até que encontrei uma pequena livraria e conversei muito com o senhor que era o dono. Ele se solidarizou muito com os livros que estava buscando e me apresentou um teórico indianista que parece ser muito famoso por aqui. Wankar Reynaga ou Fausto Reinaga. Há mais 50 anos, o cara já escrevia sobre a necessidade da tomada do poder pelos indígenas e tem toda uma teoria a respeito do Estado. Pareceu-me interessantíssimo. Reinaga escreveu livros como o “Tawa Inti Suyu” que já está na 8ª edição internacional. Comprei vários dele, além de outros que fui vendo sobre Estado Plurinacional na Bolívia, história da Bolívia, história da luta indígena, crise e contradições do governo Evo Morales. Foi ótimo.

 
Caminhando mais pelo centro, fomos parar na Praça Murillo onde está a sede do Poder Legislativo e do Executivo, além de uma enorme Catedral. 











É bem próxima ao Hotel Torinos. Fomos ao Museu de Arte de La Paz. 








Logo depois, na praça, vimos uma enorme movimentação no Palácio de Gobierno. Descobrimos que se tratava da posse da alta hierarquia das Forças Armadas. 





Puxei assunto com um senhor que acompanhava a chegada dos militares e conversamos muito sobre o governo Evo e suas frustrações. Achei interessante que o senhor era de classe média e não se identificava como indígena; para ele, os indígenas são os “camponeses”, em sua maioria “incultos”. Apesar de ter votado em Evo, estava bastante decepcionado com o governo, pois ao que tudo indica, Evo faz um governo para os cocaleiros e deixa os demais setores da sociedade, como as classes médias, a reboque. Tinha também uma opinião favorável à construção da estrada na Reserva TIPNIS, pois acredita que esta diminuiria a dependência que La Paz tem de Santa Cruz, pois Santa Cruz é o único lugar onde haveria uma agricultura mais significativa de soja, arroz e outros alimentos. Para o senhor, a proposta da estrada não foi bem explicada, por isso o projeto foi derrotado com tanta força. Ele reclama que os povos indígenas que vivem no interior das florestas de TIPNIS e que são contra a construção da estrada, estão totalmente isolados da civlização, sem acesso à saúde, educação e isso seria um fator negativo, pois meninas de 13 anos, já seriam mães e não teriam perspectivas nenhuma por lá.
O senhor da livraria que eu mencionei anteriormente, também era bem crítico ao Evo. Apesar de reconhecer a vitória que representou sua eleição, para ele, Evo e Alvaro García Linera, vice-presidente, teriam se afastado muito do pensamento indigenista ou indianista (ele fez uma diferenciação entre esses termos que não entendi bem, mas em outras palavras, os governantes estariam cada vez mais afastados de suas bases indígenas e compromissos com a Pachamana). É o poder, disse o senhor, estraga as pessoas. Evo teria incorporado certo desenvolvimentismo e se rendido aos modelos internacionais.
Saímos da Praça Murillo e chegamos a um enorme Mercado Popular, com várias e várias tendas. É como o Mercadão de Madureira deles. Tem um corredor só de livreiros. Parei em um deles, com uma senhora muito simpática, que me conseguiu mais livros de Reinaga, além de vários outros falando sobre o processo e a história do país. Até um dicionário aymará-castellano, eu comprei. Quero muito aprender essa língua e mergulhar de cabeça nessas tradições indígenas e contribuir para as discussões sobre o Estado, a economia, entre tantos outras temas tão caros a nós e importantes para refletirmos sobre o milênio que se inicia.



Na Catedral San Joaquin, já bem pertinho do nosso hotel, estava tendo um ato de portadores de necessidades especiais que estavam em marcha pelo país, exigindo que se cumprisse um artigo da Constituição que lhes dava direitos ao trabalho e melhores condições de vida. Fizemos uma contribuição.






Compramos depois um vinhozinho e umas cervejas, voltamos para o hotel, nos arrumamos e saímos para jantar na mesma pizzaria artesanal da noite passada. Estávamos cansados e a senhora era tão, tão, simpática e a comida era tão, tão boa e barata que preferimos não arriscar outro lugar. Mochileiros e viajantes de plantão, fica a dica, a pizza e massa da Dona Charo é imperdível. Fica na Rua Sacárgana, dentro de uma galeria em frente ao Hotel Sacargana. 






O dinheiro está acabando. Para comprar tudo que ainda quero, é provável que não façamos o passeio para o Chacaltaya, até mesmo porque nem temos roupas para encarar tanta neve. Teríamos que comprar, o que seria mais um gasto que não queremos ter. Já vimos muitas belezas naturais e há muito em La Paz para fazer ainda. Muitos museus, compras e ruas para circular. Além do mais, é sempre importante deixar algumas coisas para se fazer para voltarmos um dia. Eu com certeza voltarei para fazer minha pesquisa e penso que Hugo também gostaria de voltar para me ajudar a fazer um documentário sobre tudo isso. Não faltarão oportunidades, portanto, para terminarmos de fazer o que falta. Sonhamos com um dia voltar e dormir na Isla do Sol e acordar no Templo do Sol. Deve ser uma experiência incrível.
Muitas coisas aconteceram por aqui que são difíceis de explicar e nem tudo temos condições de compartilhar. Mas esta terra, pessoal, é santa. Sem dúvida, voltaremos para o Brasil, novas pessoas, novos seres humanos. Uma experiência existencial que todos deveriam fazer uma vez na vida. É nosso país vizinho, é barato e é incrível mesmo. Fica a dica para vocês.
Saludos.