Estimados,
Segue minha singela contribuição àqueles que não puderam comparecer na palestra de David Harvey, ocorrida dia 29 de fevereiro de 2012, no Salão Nobre do IFCS/UFRJ, na ocasião do lançamento de seu novo livro O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo (Boitempo, 2011)
Esse texto também poderá ser encontrado no site do Núcleo de Estudos Contemporâneos da Universidade Federal Fluminense (NEC/UFF).
As origens da crise
O último trabalho do geógrafo britânico David Harvey, O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo (Boitempo, 2011), visa explicar a crise econômica de 2007/2008 ocorrida nos EUA, a partir de uma abordagem marxista, de forma compreensível. Trata-se de simplificar o argumento sem destruir as contribuições de Marx para a análise do capitalismo e suas crises sistêmicas. O autor defende que uma análise sobre a crise, os lucros e o consumo nos permite vislumbrar caminhos para travar a luta contra-hegemônica na contemporaneidade.
Harvey parte da premissa que o capitalismo não resolve a problemática da crise porque não é capaz de superar suas contradições. O que faz é contorná-la sucessivas vezes. O professor da City University of New York resgata F. Engels e seu trabalho sobre a burguesia e a crise imobiliária afirmando que desde o século XIX não havia como resolver o problema das moradias, este é transferido para outros setores e, eventualmente, volta à tona. Quer dizer, a crise acaba sendo contornada, porém jamais resolvida. Outro exemplo é a poluição. O capitalismo não resolve o problema, mas o contorna e cita o fato dos EUA enviarem navios cheios de lixo para serem despejados no mar ou em outros continentes.
A crise, portanto, é empurrada de um setor para outro: do financeiro, é jogada para o Estado, posteriormente, para a população e assim por diante. Em essência, a história do capitalismo é o ato de contornar a crise de um setor para o outro, inclusive geográfico: começa em um país ou em um continente e, logo, é transportado para outro.
Nos EUA em particular, o consumo e as hipotecas dobraram em 1999, bem como os refinanciamentos de imóveis. Isso representa uma capitalização do sistema financeiro e o aumento do valor das propriedades. Muita gente vive disso para gerar lucro (é certo também que muitos não têm opção; dependem disso para sobreviver). A crise começou nesse setor, pois o mercado imobiliário acabou explodindo.
O ciclo vicioso das hipotecas/refinanciamentos começou com Bill Clinton ao dissimular o problema inerente que havia nesse procedimento, instigando o povo estadunidense no que diz respeito aos benefícios da propriedade privada. Uma onda de hipotecas tomou conta do país. O objetivo por trás dessa política era fundamentalmente o lucro.
Ainda nos anos 90, muitos já haviam perdido suas casas, uma vez que não tinham condições de manter o pagamento das hipotecas. O mercado financeiro viu aí uma grande oportunidade de aumentar ainda mais seus lucros através de refinanciamentos. Vale notar que é o próprio mercado financeiro quem controla o fornecimento e a demanda por moradia no país. Portanto, quando se amplia a demanda por compra de propriedades, o preço das mesmas aumenta, mas como as condições de investimento são boas, mais pessoas – inclusive aquelas que jamais teriam condições econômicas de arcar com os custos de uma hipoteca - acabam comprando (ou tentando comprar) sua casa própria. Com isso, o preço continua a aumentar. O que subjaz aí é um problema crítico, uma bola de neve, que acaba estourando em 2007/2008, quando não foi possível pagar mais pelas hipotecas ou refinanciá-las. Nesse momento, o valor ativo das propriedades despencou e passou a não valer mais nada. Muitas instituições não conseguiram vender esses ativos a tempo e foram à falência. A crise da moradia se converteu, então, num problema financeiro, num crise de acumulação capitalista. Como solucioná-la? O Estado, nesse caso, assumiu o papel de salvador, isto é, para injetar investimentos no mercado, os governos se endividam através de dívidas soberanas. Para o grande Capital, é mais interessante fazer empréstimos para países do que para empresas, já que os primeiros não podem desaparecer. Estão fadados a permanecer em seus territórios onde o credor tem condições de pressioná-lo no sentido do pagamento de suas dívidas.
Feitos os empréstimos, a questão que se coloca em seguida é como solucionar o problema das dívidas soberanas. Ora, através medidas de austeridade (princípio neoliberal), nas quais a população é quem acaba pagando. Salvam-se os bancos e estrangulam-se os povos. Piora-se a vida das pessoas para pagar as dívidas dos bancos. Em 2005, os ajustes do Fundo Monetário Internacional/FMI eram controlados justamente pelo Estado.
Mas e quando as pessoas se revoltam e não aceitam pagar pela crise? Esta é a realidade de muitos países atualmente. Nesses casos, a crise vai para qual setor? Volta para o financeiro?
Segundo Harvey, na China, nos primeiros meses da crise, houve a perda de cerca de 30 milhões de empregos (nos EUA, foram 7 milhões). O que fazer com essas pessoas? Afinal, são consumidores que deixam de investir na economia; interrompe-se, assim, o ciclo do mercado. O investimento em exportações é uma opção, porém, isolado, é incapaz de resolver o problema estrutural que há no mercado interno. Os chineses investiram, então, em obras de INFRAESTRUTURA, velho princípio keynesiano colocado em prática por Franklin Delano Roosevelt nos anos 30, nos EUA, no contexto da Grande Depressão provocada pela Crise de 1929. Na China, houve um investimento maciço nesse setor; pelo menos, duas cidades inteiras foram construídas para absorver o problema do trabalho. Além disso, o governo proibiu que os bancos emprestassem dinheiro para a população. Os recursos deveriam ser investidos nas obras dirigidas pelo Estado.
Já nos EUA, o Estado injetou capital no mercado financeiro, salvou os bancos, porém, esses recursos não se espalharam pela economia. Ficaram nas mãos dos banqueiros. Ao contrário, portanto, do que ocorreu na China, onde os banqueiros não tinham condições de enfrentar as determinações do Estado.
O resultado: os chineses viram um boom de investimentos e houve uma rápida recuperação da crise no país que, por sua vez, ajudou a recuperar vários dos países com os quais mantinha relações comerciais. Um boom de exportações de commodities para China permitiu que países, como o Brasil, por exemplo, não sentissem na mesma proporção a crise que teve início nos EUA e que se alastrou para a Europa. Para se ter uma ideia, nos últimos cinco anos, a China comprou metade de todos os estoques de cimento do mundo. Nunca houve tamanho investimento em urbanização. Em 6 meses/1 ano, o gigante da Ásia já havia superado a crise, bem como os países exportadores desses produtos.
Portanto, podemos observar que houve duas experiências de “soluções” para a crise: uma parte do mundo adotou medidas de austeridade; outra, a fórmula keynesiana-chinesa. Esta última, que vem alimentando a expansão econômica da China, é a que sustenta metade do mundo. Se o modelo chinês quebrar... o mundo, de igual forma, sofrerá duras consequências.
Nesse sentido, cabe indagarmos se este modelo é realmente seguro. Isto é, quanto tempo esse quadro vai continuar?
Para responder a esta pergunta, Harvey demonstra como esse processo atual – de investimentos em infraestrutura de urbanização para superar crises econômicas - corresponde a um ciclo do capitalismo. Tal como ocorre na China atualmente, nos anos 20, nos EUA, também houve um boom imobiliário. O autor demonstra que a Crise de 1929 foi precedida por um colapso do mercado imobiliário e de construção. Nesse sentido, é possível relacionar ambas as dimensões: o boom imobiliário e a crise econômica. Roosevelt tentou recuperar o mercado imobiliário investindo no setor de construção, o que resolveu parcialmente o problema. Porém, é importante destacar que, em 1939, muitos estadunidenses ainda estavam desempregados. Quer dizer, o sistema capitalista requer um processo contínuo de investimentos em urbanização/reurbanização para gerar emprego e renda, alimentando, assim, o mercado. Não é à toa que muitos políticos são dependentes de empresas de construção civil.
Vale notar que, nesse contexto, as cidades-olímpicas se converteram em espaços privilegiados para colocar em prática essa premissa do Capital. São alvos desses interesses capitalistas de urbanização. Grécia, Atlanta e outras, receberam um boom imobiliário. Porém, vítimas do ciclo econômico acima referido, depois, quebraram. Será este o futuro do Rio de Janeiro? Precisamos ficar atentos.
Portanto, a urbanização é fundamental para a manutenção do sistema capitalista. Sendo assim, considerando essa dimensão, o que as pessoas pensam sobre isso?
Possibilidades emancipatórias
Diante dessa característica do capitalismo - isto é, de ter na urbanização sua peça chave de reprodução - que se torna cada vez mais evidente, o que percebemos no âmbito das lutas contra-hegemônicas é que há um aumento das contestações desse modelo de urbanização predatória.
As cidades estão sendo transformadas para atender às demandas do capitalismo e não para o bem-viver. Se a urbanização é estrutural para o capitalismo, é preciso estar atento às lutas urbanas que, no contexto atual, devem ser entendidas ou tornadas, lutas de classes. Não há mais o operariado clássico das fábricas, mas sim, trabalhadores urbanos, dispersos e desorganizados. Nosso papel é compreender esses trabalhadores e observar como se construiria uma identidade coletiva de classe. Como organizar essa classe trabalhadora para a luta contra-hegemônica?
As cidades na história foram palco de importantes lutas: houve a experiência da Comuna de Paris de 1871; atualmente, vemos a tomada das praças no Mundo Árabe, o movimento de Ocupação de Wall Street. Quer dizer, as cidades são espaços de poder e de luta contra o sistema. Seu papel é central.
Em relação ao movimento de Ocupação de Wall Street, Harvey reconhece sua importância, porém critica que seu princípio de atuar em exclusiva horizontalidade é uma fraqueza. Para o autor, qualquer forma de organização deve articular horizontalidade e verticalidade. Sem este último, que é o que, ao fim e ao cabo, garante a ação política de forma mais objetiva, os movimentos não conseguiriam se manter firmes durante muito tempo. O Ocupy Wall Street foi interessante também para identificarmos o real significado dos “espaços públicos” nas cidades. Haverá mesmo esses espaços?
Harvey sugere que o que precisamos são de projetos de urbanização alternativos. No mundo contemporâneo, há bons exemplos disso. Alguns dos casos mais emblemáticos para o autor são as cidades de El Alto e Cochabamba, na Bolívia – objetos do seu último livro lançado nos EUA. Ali, os movimentos indígenas foram capazes de articular a horizontalidade e verticalidade para a tomada de decisões e conseguiram derrubar dois presidentes, além de conquistar outra série de benefícios. As estruturas indígenas se fundiram com a realidade das cidades e permitiram a construção de um paradigma do que deveriam ser as lutas urbanas na contemporaneidade.
Por fim, indagado sobre o papel do campo em toda essa história, Harvey afirma que não haveria mais essa distinção clássica entre campo X cidade. Hoje, o que consideramos como “campo”, na verdade, seriam extensões rurais das cidades uma vez que princípios da vida urbana são recorrentemente encontrados nessas regiões (utilização de celulares, televisão, internet etc.). Harvey resgata a obra de Lefebvre, quando o autor analisa a Revolução Urbana na Europa e previu que essa transformação ocorreria.
Em El Alto, para voltar ao exemplo, as formas originárias rurais indígenas se metamorfosearam com a ocupação das cidades. Portanto, atualmente, tudo é urbano de alguma forma e a luta contra-hegemônica deve ser organizada partindo dessa premissa.
